O Presidente queniano William Ruto disse à Assembleia Geral que a igualdade soberana proclamada pela ONU é contradita pelas próprias estruturas da Organização, apelando aos Estados-Membros para reformarem o Conselho de Segurança e um sistema financeiro internacional «construído para outra época».
No Debate Geral, Ruto afirmou que o Quénia falava «não por desespero nesta instituição, mas por convicção nas suas possibilidades», acrescentando que «o multilateralismo funciona quando as nações encontram vontade para o fazer funcionar».
Contudo, disse que no último ano foram registados 65 conflitos armados entre Estados, 13 deles guerras abertas, com quase um quarto de milhão de pessoas mortas em violência organizada e disputas cada vez mais «congeladas, adiadas ou decididas pela força».
«Permanentemente excluídos»
Cada nação tem um voto, afirmou, mas cinco detêm um poder permanente sobre questões de guerra e paz que as outras 188 não possuem: «A igualdade proclamada nesta Assembleia termina às portas do Conselho de Segurança.»
Os 54 Estados africanos, mais de um quarto da Assembleia, não têm qualquer assento permanente no Conselho: «Permanentemente discutidos, mas permanentemente excluídos.»
Alertou que a confiança na aplicação coerente do direito internacional está a enfraquecer em partes do mundo.
«O direito internacional não pode ser invocado com força numa crise, com cautela noutra e ignorado quando é conveniente», afirmou.
Dezassete anos depois do início das negociações intergovernamentais sobre a reforma do Conselho, disse que «não devemos aceitar que a reforma seja impossível apenas porque é difícil».
«O capital não deve incorporar preconceito no preço»
Sobre finanças, disse que a dívida pública global atingiu o recorde de 102 biliões de dólares em 2024 e que 46 países em desenvolvimento gastam agora mais em juros do que em escolas e medicamentos.
«O hospital compete com um credor. A sala de aula compete com o serviço da dívida», disse.
Citando uma estimativa do PNUD segundo a qual a subjetividade nas classificações de crédito custou cerca de 75 mil milhões de dólares aos países africanos, disse que os países em desenvolvimento contraem empréstimos a taxas duas a quatro vezes superiores às dos países desenvolvidos. «O capital deve precificar o risco. Não deve precificar o preconceito.»
«África não vem suplicar. Vimos com uma proposta», afirmou, apontando para os minerais do continente, energia renovável, população jovem e o projeto queniano de uma refinaria de 16 mil milhões de dólares em Lamu, com capacidade para produzir 700 mil barris de petróleo por dia.
«Isto não é um pedido de tratamento especial. É uma proposta de prosperidade partilhada», disse, defendendo que uma África mais industrializada, segura em alimentos, conectada e capaz de se financiar será um parceiro mais forte para o mundo.
Concluiu apelando não a «Nações Unidas de algumas nações», mas a uma ONU «onde cada nação tenha voz, cada povo tenha participação e cada criança tenha futuro».


