A Primeira-Ministra da República Democrática do Congo (RDC) alertou para a crescente procura mundial por «minerais manchados de sangue» na corrida para a neutralidade carbónica, no seu discurso perante a Assembleia Geral das Nações Unidas.
Num contexto de décadas de insegurança violenta e deslocamentos em massa na região oriental do vasto país, rica em recursos — onde também se propaga um surto mortal de Ébola — Judith Suminwa afirmou que poucas situações «ilustram de forma tão dolorosa a distância entre os compromissos internacionais e a realidade vivida pelas pessoas».
«Não podemos construir uma economia descarbonizada com minerais manchados de sangue», afirmou. «E não alcançaremos uma transição justa reproduzindo, com uma aparência verde, as dependências do passado.»
Dirigindo-se aos líderes reunidos na sede da ONU em Nova Iorque, afirmou que a RDC «continua a enfrentar uma guerra de agressão conduzida pelo Ruanda através do seu grupo aliado AFC/M23». Outros grupos armados, especialmente as Forças Democráticas Aliadas (ADF) e a CODECO, agravam a crise humanitária.
Uma paz ainda distante
A Primeira-Ministra apontou vários desenvolvimentos que abriram perspetivas para o fim da violência, como o acordo de paz assinado em Washington, em junho de 2025, entre a RDC e o Ruanda.
Observou, contudo, que «para milhões de congoleses, esta paz continua a ser apenas uma promessa».
Disse que a Resolução 2773 (2025) do Conselho de Segurança «traçou um caminho inequívoco» ao apelar, entre outras medidas, a uma cessação efetiva das hostilidades, à retirada das forças ruandesas do território congolês e ao restabelecimento da autoridade do Estado.
«Mas não precisamos de novos textos para substituir os que já foram adotados», declarou.
Repatriamento de combatentes das FDLR
A Sra. Suminwa abordou também as Forças Democráticas de Libertação do Ruanda (FDLR), um grupo armado maioritariamente hutu, recordando que um protocolo assinado em maio prevê o desarmamento e a desmobilização dos seus combatentes.
No início deste mês, a missão de manutenção da paz da ONU na RDC, a MONUSCO, apoiou o repatriamento de 120 pessoas associadas ao grupo, o que classificou como «um primeiro testemunho da aplicação do protocolo».
Uma transição justa e empregos
A Primeira-Ministra destacou a crescente procura por cobre, cobalto, lítio, níquel e outros minerais críticos, inclusive para impulsionar a transição energética e a expansão das infraestruturas digitais e de inteligência artificial.
Disse que a RDC está no centro desta transição, por ser o maior produtor mundial de cobalto — utilizado, por exemplo, em baterias de lítio e equipamentos digitais — e um importante produtor de cobre.
«Seria simultaneamente injusto e perigoso que o valor acrescentado, os empregos, o conhecimento e as tecnologias continuassem concentrados longe das comunidades que tornam estas mudanças possíveis», advertiu.
Afirmou que a RDC «rejeita o antigo modelo que limita os países produtores à extração bruta, enquanto a transformação, a investigação, a tecnologia e a maior parte dos lucros ficam concentradas noutros lugares».
Daqui para a frente, o país pretende unir-se a parceiros africanos e internacionais para construir «empresas regionais competitivas que criem empregos, competências e prosperidade partilhada».


